Morrer pode ser virar uma esquina, fazer uma curva com o vento e mudar tudo. Ou mudar grande parte, a maior parte.... "Quem foi que disse que só se morre uma vez?" Indagou Austragésilo Carrano, na introdução do seu “Canto dos Malditos”.
Sempre me impactou essa pergunta. Ela afinal, remete às várias mortes que temos no decorrer da vida, antes de chegarmos ao estágio de finalização da matéria. Morremos do parto à morte. Passagens...É sempre assim. Deixamos algo partir, para quiçá um novo chegue. Ok, não há nenhuma novidade nisso, diriam alguns. Clichê! Diriam outros. De fato, eu ficaria até motivada a concordar, todavia acho que me dispus a ir além e tentar perceber o novo de cada renascimento, perceber onde está a diferença, qual o detalhe, onde está o aprendizado, ou talvez o reaprendizado.
Uma morte pode ser uma mudança de cidade, uma separação de um amor, a perda de alguém querido, uma doença da qual se cura, (ou não), um acidente, o nascer de um filho, uma mudança de trabalho, uma partida, uma chegada... mas sempre algo que provoca uma transformação interna tão avassaladora, que, tatuada na retina, nos convida às vezes de forma delicada, às vezes de forma abrupta, a olhar a nós mesmos através de outras lentes, e não nos dá outra opção que não a de fazer a curva com o vento.
Talvez seja sobre isso que queira rabiscar aqui... São muitas as experiências tatuadas na retina, mas há uma curva em curso. É, afinal, a vida passada a limpo, em contraposição ao antigo “papel borrão”. Agora temos em mãos uma resma de papel em branco, Oxalá, para o novo que há de vir... Talvez seja deveras controlador querer registrar cada nova sensação. Cada novo saber e cada novo “desreconhecer”, talvez possível, talvez necessário, talvez seja prazeroso.
A idéia é, portanto, desbravar uma estrada que eu não sei onde leva. E que bom não sabê-lo. Ainda que em seu percurso passemos por lamaçais que dificultem o caminhar, enfrentemos chuva forte, caiamos, levantemos... O desejo, enfim, é que, ao cruzar o túnel, desagüemos na claridade vasta da praia calma, e cheguemos, em segurança, a nossa casa interna.







