6 de nov. de 2011

Sobre o morrer e o renascer nosso de cada sempre...

  
Morrer pode ser virar uma esquina, fazer uma curva com o vento e mudar tudo. Ou mudar grande parte, a maior parte.... "Quem foi que disse que só se morre uma vez?" Indagou Austragésilo Carrano, na introdução do seu “Canto dos Malditos”. 

Sempre me impactou essa pergunta. Ela afinal, remete às várias mortes que temos no decorrer da vida, antes de chegarmos ao estágio de finalização da matéria. Morremos do parto à morte. Passagens...É sempre assim. Deixamos algo partir, para quiçá um novo chegue. Ok, não há nenhuma novidade nisso, diriam alguns. Clichê! Diriam outros. De fato, eu ficaria até motivada a concordar, todavia acho que me dispus a ir além e tentar perceber o novo de cada renascimento, perceber onde está a diferença, qual o detalhe, onde está o aprendizado, ou talvez o reaprendizado.

Uma morte pode ser uma mudança de cidade, uma separação de um amor, a perda de alguém querido, uma doença da qual se cura, (ou não), um acidente, o nascer de um filho, uma mudança de trabalho, uma partida, uma chegada... mas sempre algo que provoca uma transformação interna tão avassaladora, que, tatuada na retina, nos convida às vezes de forma delicada, às vezes de forma abrupta, a olhar a nós mesmos através de outras lentes, e não nos dá outra opção que não a de fazer a curva com o vento. 

Talvez seja sobre isso que queira rabiscar aqui...  São muitas as experiências tatuadas na retina, mas há uma curva em curso. É, afinal, a vida passada a limpo, em contraposição ao antigo “papel borrão”. Agora temos em mãos uma resma de papel em branco, Oxalá, para o novo que há de vir... Talvez seja deveras controlador querer registrar cada nova sensação. Cada novo saber e cada novo “desreconhecer”, talvez possível, talvez necessário, talvez seja prazeroso.

A idéia é, portanto, desbravar uma estrada que eu não sei onde leva. E que bom não sabê-lo. Ainda que em seu percurso passemos por lamaçais que dificultem o caminhar, enfrentemos chuva forte, caiamos, levantemos...  O desejo, enfim, é que, ao cruzar o túnel, desagüemos na claridade vasta da praia calma, e cheguemos, em segurança, a nossa casa interna. 

25 de out. de 2011

Lampejo

Dei de tomar coca-cola à noite
E agora, dei de não dormir...

Nesse intervalo
Fico a pensar que deve haver algum sentido
Em ser tu que me achas sempre.
No im, pré, visto.

É no lapso de distração - segundos
que  tuas patas macias repousam em mim
e dá-se a o encontro sem palavras.
consumido por qual grandioso é todo esse olhar

Deve haver algum mistério
Ao qual minha tola esperteza não está acostumada
No fato de seres tu
que sempre me achas.

Receio já ter escrito isso antes...
Aqui por perto, mesmo.
Fazer o que, se agora,
arrumei um cotidiano qualquer no qual teu som me invade
até a próxima vez

Trago comigo o primeiro som
o que liberou a pista
E foi lenta e sutilmente me invadindo
Tamanha doçura foi
que ouço, sou capaz
cada instrumento
só e conjuntamente.
Enquanto espero virares
E numa luz que não se afaiscou

Voltares para ver de perto
E escolhermos juntos
Ou, talvez não,
Se o depois virá.

E mais uma vez enquanto
na espera, me esvazio de ti
Teu som vira minha bagagem rio acima
Pelos ares, pelas águas doces de Oxum
Até a volta, despeço-me todo dia.

16 de out. de 2011

Brilha-olhos

Talvez não seja você
Mas tanto mais do que encontro em mim
Que me faz ferver a carne.
Mas porque tu és som,
capaz de isso ser coisa de pessoas.
Pessoas dentro e fora de mim.

A sensação de silêncio que me causas
reverbera a música do mundo
que inunda a sala vermelha
criando, assim, os brilha-olhos

Teu som é toque sutil.
Ou seria teu toque que me soa?
Pouco importa se tu que sempre me vês.
E a tua surpresa transforma-me a ansiedade morta.

Mesmo quando te vejo antes.
És tu quem me tocas.

Se também te faço música
Não sei como a escutas.
Se a escuta.
Mas na floresta de fogo
O que importa saber isso agora.
Se só chegou o tempo de olhar...

Tua clave de sol brilha-olhos
Dá o tom do silêncio nos encontros.
Queria sair pra cantar nos teus olhos...

12 de out. de 2011

O que tem pra hoje...

Da parte que já "travessei" a minha ponte
o que tem pra hoje
é a certeza do caminho sem volta

A melhor parte, porém,
é não ver o que tem adiante...
Então, adiantemos...
Mas não tem o um só,
que eu deixei na margem esquerda...

 "travesso" da esquerda pra direita...
Não sei porque,
mas é assim que os olhos d'alma me imaginam
E assim vem sendo...

Do que não se vê na direita
Um largo tão grande,
que cabe o que não enxergo
Surpresas do dia a dia...

Resolver a vida em suas surpresas
Não planejar o re-solver...
Não predatar o diluir...
Apenas ver se esvair a dor que nem mais existe

Saudade que já deixou espaço pro vazio...
Conhecer sem planos e sem pressa
Todo o novo que chega...

 Surpresa,  Espera e Desconhecido
são irmãos diferentes...
Que se completam

Um dia,  Desconhecido  apronta Surpesa
E aponta a luz que nos faz ver
que o esperado,
No fundo, sempre esteve lá.

11 de out. de 2011

Clave de Fogo



O segredo preservar o vazio em silêncio
O segredo é viver o nada, como se inteiro fosse...
Negar a espera  alerta
que inunda e embaça o mesmo nada.

E você,
sempre chega junto em delicada distração.
Companheiros de olhar profundo
Esses tais olhos tantos se passeiam e se falam tantas coisas
que ainda não sabem querer dizer...

Você chega quando eu nunca nos sei
Quando eu desisto de ter recaídas de mim.
E que assim seja..

Que impregne o corpo e a alma
como o fogo que me tacas
e me tocas por dentro da carne...

Ou como a música e a poesia que te embriagam
Ou como a doçura inexplicável que me contamina
Não importa quando ou como chegues
Seja apenas bem vindo, Amor!

7 de out. de 2011

Silêncioso som de fogo

E do teu olhar
vem o risco do fogo em meu avesso
Palavras "empequenecem".
infinda brasa

Vontade de só olhar
tocar um pouco, quiçá...
 Um sentir de cada vez
pra dar sentido aos poucos.

Cheirar e ouvir vem depois
Sentidos  profundos, tal vez
Noutro encontro
 Ouvir o mover suave dos teus braços.
Pra que, Oxalá, toques o meu canto.

28 de set. de 2011

Amor sem conservante

Entre cordas de violão,
pares de pés e bom vinho.
Não há mais onde rabiscar saudade
Aí rabisco aqui, nessas mal traçadas letras.

Desço pra rua
procuro o vazio
todos os carros são seus
todas as placas são do seu lugar
Que nem sei mesmo mais onde é?

Melhoro sempre...
Daria até gosto me ver,
já cantou Renato Russo
Melhora falsa

Continuo rabiscando
sigo a cozer
como água para chocolate
O reservatório onde coloco meu amor
Amor em conserva...

Quem sabe tempero
com esse mesmo amor
 Outra história qualquer
sem conservantes...

18 de set. de 2011

Vinho das cordas aos pés



 Às vezes fica só vício.
O velho
e a preguiça do novo.

E quando o novo lhe acha,
qual seu vício?
"- A música e outras coisas..."

Silêncio, olhos baixos
Um que de sedução,

um abraço antigo
Um encontro novo.
Ou contrário?

 Lhe droga a poesia dos olhos baixos.
Olhos transeuntes
entre cordas de violão e dedos dos pés
De quais pés?
Ainda não sei.

Do velho, só o vício...
vício que tudo Apaga...

Do novo,  a preguiça do velho
e o vinho recém aberto,
dormente frio na geladeira...
Será?

Gosto mais das novas rolhas na cristaleira...
E me "prazenta" o olhar cabisbaixo,
entre as cordas de um violão,
os meus e os seus pés...

8 de set. de 2011

Um não sei o que de silêncio saudoso...

Acordei  íntima do silêncio.
e tanto já se disse da saudade, 
E tão duro é sentí-la quando não se pode matá-la.
Dói mais que a saudade seja gente 
E em se sendo, esteja ali, em sua frente.
Tanto mais dói que a própria ausência.
Mas não seja mais um abraço inteiro.

Acordei íntima do silêncio
E ali, no frio computador...
Tua essência me renasce de surpresa
Imaginando o dia de te reconhecer
Associar-te-ei a alguma daquelas poesias que não li?
Ou já serás passado de ti próprio quando esse dia chegar?
Ou serás só uma foto guardada na caixa azul?
Eu já sou passado de mim na mesma foto - juntos. 
Acho que seremos passado do que não fomos.
E chego a achar que isso é bom.

Melhor ter-te por hora só em saudade, 
mas ainda escolho a saudade-silêncio. 
Tudo o mais, é molhar o cimento seco.  
Quando entendermos que é preciso preparar novo cimento,
 prepararemo-nos, também, para nos achar de outro modo.

Tinha uma dureza qualquer em ter de ser fria.
Mas havia, ainda assim, uma certeza na dureza. 
Maior até do que a certeza do possível.
E maior até que a saudade que nega - há braços

 Existia a saudade de algo que não quero mais.
Porque nunca mais quero querer o que nunca tive.
Não estou falando de você. 
Você não é coisa do querer
Você é coisa do amar sem garantias 






3 de set. de 2011

O amor, as pedras e a roseira....

O amor antes, era um terreno onde caíram muitos galhos secos, derrubados por uma tempestade...
Caíram folhas, frutos... secaram, se soterraram na lama
Foi um trabalho tão grande limpar tudo...
Transformar os galhos secos em lenha
acender uma fogueira que me aquecesse do frio à noite.
Foi tão custoso extrair raízes de árvores mortas.
Uma por uma.
Uma labuta solitária e solidária a mim
Um dia, de tão envolvida, eu mal percebi
Havia terminado...
Abriu-se um sol.
Tudo estava lindo,
Ele, o sol e o vento conversavam,
balançavam as árvores que sobreviveram
Os frutos que caíram no chão durante a tempestade
na verdade viraram sementes
Ao olhar pro chão.. lá eu vi pequenas e novas árvores surgindo
Frágeis, lindas e cheias de esperanças de que logo viessem as flores
Os novos frutos.. os novos sabores, Os novos saberes...
Não deu tempo.
Outro jeito de tempestade.
Nem era mais tão inverno, já havia certo sol novamente... num outro tempo
Dessa vez foi o homem
E com ele, e sua civilização, vieram as pedras que caíram
foram jogadas de uma caçamba de caminhão
Ia-se construir uma estrada naquela trilha.
Bem por sobre o amor.
E foi assim que tudo foi soterrado...
As pequenas árvores,
a esperança das flores e dos novos frutos.
Novo trabalho começa...
Nova solidão nessa floresta escura
Tirar pedra por pedra...
e  ver o estado do amor.
Torcer pra que esteja protegido, como pedi um dia
Torcer pra que tenha ficado enganchado entre uma pedra e outra
Pra que tenha dado tempo de se esconder
de mergulhar num lago próximo...
E pra que consiga respirar bem debaixo d'água..
Pra que tenha fôlego pra esperar o tempo de eu tirar as pedras
E replantar algumas sementes...
E esperar crescer..
Enquanto isso, ficamos cá, eu e a roseira da varanda
que nem brigou com o cravo
Mas ficou despedaçada..
Tento ensiná-la a cantar...
Mas as vezes me some a voz...
Já tem pequenas folhas..
mas acho que ainda demora sua gestação de novas rosinhas.
Esperar... esperar, e esperar....

21 de ago. de 2011

Sobre o engarrafamento de gente....

Quando nasci fui presa numa garrafa. Não, eu não era uma gênia, e não vim, necessariamente, para realizar desejo alheio algum... Mas foi assim que aconteceu: cachos no cabelo, laços de fita, "- feche as pernas, menina!" Cria da ditadura militar, tudo que me submetia gerava em mim uma suposta rebeldia que não tinha lugar, e na maioria das vezes era ininteligível para a maioria das pessoas.

Com o que não se sabe o que fazer, não se faz mesmo nada. Natural. Mas urgente também é, nesses casos, se busca formas de sobreviver a tudo isso e ainda tentar ser, apesar de. Não, não vou perder tempo aqui  citando mais nenhuma das frases que são representativas da indústria de engarrafamento de gente. Mas são marcas difíceis de apagar, ainda que se saiba que o que importa é daqui pra frente e ainda que em algum momento a lucidez sobre o que se fazer com isso venha a tona.


Aí meia hora de choque, alguém balança a garrafa e você explode de uma vez só. Como quando se estoura uma Champagne, e quem está de fora grita com o barulho da rolha, busca com os olhos a sua direção, receia que ela bata nos olhos de alguém, e finge que se importa que todo aquele líquido de prazer possa molhar sua roupa nova, confeccionada para essa ocasião...

O banho de espuma que ali surge é sempre uma centelha de esperança de uma vida nova que começa.  Quem se importa com o carpete indiano? Quem se importa com o respingo nas paredes? Quem quer saber do lustre de cristal? Atentar tanto para isso é manter-se na garrafa. E manter-se na garrafa é tão somente se constituir enfeite do status alheio.

Bom mesmo é ver a espuma entrar em erupção e jorrar, jorrar muito, molhar quem está por perto, bom mesmo é encher as taças imaginárias, cristal, copos de geléia, de que interessa? O importante mesmo é o sabor que tudo isso vai ter. Bom mesmo é que essas celebrações sejam sempre coletivas, sempre pedem ao menos - outro alguém por perto. Outra taça... E quem sabe, outra garrafa, outro estouro único.. E depois desse ritual interno, tim tim! Um brinde!

13 de ago. de 2011

Quando olhávamos juntos na mesma direção...


Um ano e meio antes de morrer, ou melhor, antes de renascer, já olhávamos juntos numa mesma direção. Seria já prevendo que uma conexão de energia maior nos envolveria e tornaria aquele contato inicial tão despretencioso uma cumplicidade tão grandiosa entre nós?

Sempre grata a esses dois queridos, por estarem por perto num momento crucial, em que urgia entrar em contato com tantos novos sentimentos. E grata por se reinventarem comigo, cada um a seu modo...

A foto é de Leonardo Cunha, em março de 2010 - São Tomé do Paripe - Salvador - BA.

12 de ago. de 2011

Nitroglicerina Pura...

Uma vez um colega da escola me falou. " você não sabe o poder que você tem..." .  Achei aquilo legal, importante, mas devo confessar que do alto dos meus mal vividos 14 anos de idade, não entendi. É isso, não entendi nada. Ali morou em mim uma adolescente com traços de rebeldia sem causa. Ou com uma causa tão cravada em seu íntimo que sequer  conseguia externar para o mundo. Havia a força de um compromisso com a vida, lutando contra a prisão de uma culpa que lhe fora imputada e que por ela foi assimilada, de forma tal que a permissão para o seu próprio sentir tornou-se algo tão sofrido que só era possível em situações as mais extremadas.

Uma primeira ruptura, uma primeira morte para garantir algum renascimento foi necessária. Isso já foi aos 19. Depois, outras tantas pequenas mortes vieram. Com elas, diria Felipe Botelho, nada de sabotadores, mas as minhas próprias traições me acompanharam um punhado de tantas vezes e nem vou narrá-las aqui, pois de nada adianta reviver histórias que já estão tão assentadas em mim, fazendo parte do trajeto que já caminhei nessa estrada-terra.

Poder e controle são coisas diferentes. E longe de mim aqui querer estabelecer um glossário para pontuar o significado de cada uma dessas palavras. Nada de brigar com o Aurélio. A questão é maior. É o que controlar o sobre o que ter poder.

Em um único ano: uma morte, a ruptura de um processo de fantasias que, por pouco não se confunde com a perda de um amor, uma agressão. Nitroglicerina Pura para a explosão do olho de boi que gerou Séfora: a mulher fogo que brota de uma semente jogada ao mar, e que causa uma explosão de calor e luz. Enquanto a semente germina em contato com a água, peles duras se rompem pra dar lugar à raiz que brota, cascas amolecem e saem, num processo de mudança natural de pele, e tudo se inrompe e a compreensão do poder vem até a superfície do mar, e é isso que gera o fogo, não o fogo que incendeia e que destrói, não o fogo que se auto-consome e se reverte em cinzas, mas o fogo que clareia o caminho, o fogo que aquece do frio, que ilumina e que existe sem função, pura e simplesmente pela beleza do existir. O fogo de uma verdade interior que reverte o poder para si. Que muda o foco do controle. Estamos falando agora do controle de se dirigir  a si próprio, e assim, por vezes, sem medo também se deixar levar.  O desfoque das chamas, o que faz queimar é simplesmente querer ter poder sobre outro desejo que não o seu próprio, querer controlar o incontrolável. Isso é causador de um tipo de apego, de um tipo de posse, que só frustra, desagrega, e faz a vida empacar.

De repente, uma sensação forte de que entre tantas dores temporalmente próximas, envolvendo pessoas tão interconectadas entre si, só pode ter uma vinculação maior que simplesmente as coincidências da vida. Até porque não há coincidências. Na dificuldade de lidar, o ponto comum: ser um só ser leva a isso. Vamos usar a mesma ferramenta para todos os tratamentos. O querer ter poder sobre o incontrolável. Querer ter poder sobre a morte, querer ter poder sobre o amor que não brota em mim, querer ter poder sobre a violência gratuíta do mundo. "Isso não está acontecendo" não são palavras mágicas que controlam e revertem as situações de desconforto. O poder de não controlar talvez seja, de fato o maior de todos. O poder sobre o nosso próprio desejo deve ser, portanto, o único a ser cultivado. Isso não é desapego isso é desejo, e a clareza dos desejos é fundamental, mas tanto quanto ela, a certeza de que os desejos podem ser mudados a qualquer momento, sempre que o coração assim ordenar.

9 de ago. de 2011

A primeira última oração...

Quando a morte se fez PRESENTE não havia o que fazer a não ser rezar. Na hora, foi difícil decidir pra quem, pra que entidade, pra que santo, pra que Deus, pra que Deusa... Não havia tempo. Passa-se muita coisa em nossa cabeça quando a morte chega, mesmo que seja assim: de passagem. Mesmo que ela mate só um pedaço de nós, aquele que precisa morrer e se dispersar na natureza e, por fim, permitir que outra coisa renasça.

Dentre as preces que fiz - muitas eram pela vida, outras eram pela morte. Pela preservação das nossas vidas, fiel a certeza de que estaríamos bem. Havia, porém, um conflito que se debatia com o pedido pela morte serena e sem dor. Era o pedido para que tudo aquilo acabasse. E acabasse bem. Pela vida ou pela morte.

Mas lembro-me de um pedido muito especial. Raro, talvez, que demorou um mês para ser recobrado na memória. E que continua sendo um pedido: cuide do meu amor. Sim, tou falando do ser que amo, mas também estou falando do amor que me habita. Não era justo sequelar de novo. Pedi a Deus então: "guarde meu amor numa caixinha, e permita que ele não se machuque". E deixe-me abrí-la logo que  for o tempo de lançá-lo ao mundo... Mas deixe comigo a certeza de que ele ainda me habita.


Do trocar a pele...

Trocar de pele nem sempre é fruto de escolhas. Às vezes a vida se aproxima como num temporal. Dificulta nossa caminhada, envolve o nosso corpo por lama e nos obriga a não correr, a andar devagar. Os galhos nas estradas nos arranham o corpo, e pancadas em pedras e troncos nos criam hematomas diversos. Aí chega ela, a violência que nos amarra, que nos fere a pele.
E assim começa um lento, ou não sei se lento, processo de troca. Ao voltar o sol, vemos claramente que não é possível restaurar aquela pele. Ali não há sutura, ali não há hidratação, não há bronzeamento. Há dois procedimentos - o tirar, definitivamente a pele - e isso dói. E o permanecer em carne viva, silenciosa, exercendo talvez o que é mais difícil das tarefas: esperar.
Tirar a pele e colocá-la para secar, em nada se confunde com poder vestí-la novamente. Agora, outras temperaturas, outras texturas perpassam aquele corpo. E a elas, uma nova pele precisa ser criada pelo tempo. Colocar a velha pele para secar só tem um propósito. Que ela não exale mal cheiro quando for lançada fora para sempre. Ninguém precisa conviver mais com ela. Vai se decompor, se reintegrar a natureza, quiçá virar adubo para fazer crescer outros seres, flores, frutos, capim que alimenta animais, cumprir outra função fora do corpo.
 Até lá, ficamos em carne viva. Uma sensação de exposição profunda nos inebria, então.
Tudo dói ao menor toque. O suave vento, aquele que outrora apenas refrescava o rosto em uma manhã de calor, agora dói, arde, queima aquela carne sensível.  E talvez prepare o corpo, resseque um pouco, para que ele crie a textura ideal de acolher a nova pele que nasce.
Em algumas partes do corpo, esse preparado todo incomoda ainda mais. E o mais difícil está posto. Não há o que fazer: é a espera, é o tempo, é a paciência.
Ajudam nisso tudo, o poder olhar para trás e poder tentar ver como outras esperas puderam ser válidas, o corpo brinca entre as entranhas de suas descobertas. Onde os bálsamos aliviam, onde ainda é território proibido. Como uma criança que aprende a andar, o passo a passo vai se instituindo. E vai driblando o medo, sentindo a dor como uma dor de prazer. Como quem pari a si mesmo e vai sentir novamente todas as sensações... e não se arruma para viver, simplesmente vive...


31 de jul. de 2011

Minha Oração

Por Ana Luísa Fagundes


Deus, dê-me SERENIDADE para aceitar aquilo que não posso mudar. CORAGEM para mudar o que posso e  SABEDORIA para reconhecer a diferença.

CURA espiritual, emocional, relacional e física. PRAZER com as pequenas coisas, as grandes coisas, com meu corpo, com as pessoas e com o mundo. EQUILÍBRIO energético, organização interna, clareza do que quero, do que sou, do sentido das coisas para mim, possibilidade de desacelerar a vida, respeitar os tempos das coisas, os acontecimentos, o desacelerar a vida, o meu modo de ser e o modo de ser das outras pessoas.

FIRMEZA e VITALIDADE corporal, energética e espiritual para enfrentar os embates necessários, sem esmaecer, ser tomada por eles, ou cair no ceticismo. AMOR, abertura para amar e ser amada, tocar e ser tocada sem receios e sem dependências, aceitando de verdade os meus limites e os limites das outras pessoas.

Possibilidade de levar para as outras pessoas  alegria, leveza, criticidade, desejo de transformação social e pessoal, amor, acolhimento e de expressar minha beleza. É isso o que busco na vida, são com essas coisas que quero sintonizar e ser agraciada.

E que assim seja. 

Meu caminho pelo mundo, eu mesmo traço....

Comecei a ler o texto da Eliane Brum, a "Vitima Indigesta". Sobre a garota austríaca que ficou por oito anos no cativeiro de um sequestrador. Parei na parte do perdão e da contemporização do algoz, quase transformado em vitima. Mesmo que racionalmente (e em condições normais) consiga entender que os argumentos dela tem razão de ser. Não quero sentir nada parecido ainda.

Vitimizar os algozes foi algo que já fiz e paguei caro. Fiz inclusive com os afetos por quem me deixei violentar. Não posso cotinuar a ler agora o tal texto, não acredito naquilo. Adorei a explicação de uma amiga psicóloga: "ela criou um jeito de não enlouquecer". Assim consigo me sentir mais identificada.

Não acredito em perdão sem culpa. Perdão é antes de tudo um exercício de poder, de alguém que está socialmente no lugar de vitima, para alguém que ocupou o espaço de algoz. Mas antes de tudo, não acredito no perdão sem a raiva, sem o ódio. Nem sequer consigo pensar em perdão. Mas consigo pensar em atingir um dia o estágio de indiferença tal que isso não ferre com os meus outros bons afetos nessa vida.

Talvez seja difícil para as pessoas lerem isso, porque a vítima está frágil o suficiente para não ameaçar.  Então é mais bonitinho ser vitima. Desperta o autruísmo alheio e os mais co-dependentes podem até mostrar o quão solidários podem ser nesse momento. Mesmo que alguns, para isso, precisem lhe ferir mais um pouquinho. Já aquele que tem ódio, definitivamente pode ser um perigo para a sociedade.

Tenho muitas fantasias do que faria se encontrasse esse algoz em meu caminho.  Não, não acho que o machucaria, mas adoraria por meu pé sobre o seu pescoço, é, sem machucar mesmo, mas apenas para humilhá-lo com um simbolismo de força física, outrossim, seria de um imenso prazer cuspir-lhe o rosto e falar-lhe sobre como deve ser triste para um homem não conseguir conquistar o afeto de ninguém e precisar de uma faca e tanta força física para conseguir "um beijo". Adoraria falar da sua fraqueza de caráter, da sua covardia, e do imenso e profundo nojo que sinto dele.



Se isso iria servir para esse ser, definitivamente eu não sei. Mas estou tão centrada em mim, que pouco me importaria. Interessa-me o efeito catártico sobre mim mesma. Já se passaram os dias em que inventar polianices para essa situação supriria o assumir esse sentimento tão negado socialmente.

A mim interessa a catarse que isso me traria. A sensação de fazer justiça. Vê-lo atrás das grades seria de um prazer inenarrável, mas falta-me forças para tantas mobilizações num estado que não garante a retaguarda necessária.

Minha reverência, respeito e profundo reconhecimento aos direitos humanos estão de férias por um tempo. Agora já tenho certeza que não vou enlouquecer. Agora já posso odiar. Me autorizei. Depois, quem sabe coloco isso em um lugar menos desconfortável, que não atrapalhe meu caminho pelo mundo...

Quanto ao castigo desse indivíduo, na impossibilidade de materializar o meu sentir, que morra lentamente, porque não se dá a morte tão facilmente assim, de preferência de uma doença que ele próprio cultive em seu corpo e que lhe traga muita dor, e que esteja bem lúcido para sentir tudo com rigor de detalhes. Que seu corpo lhe devolva os requintes de crueldade que usou comigo,  e que seja bem desprezado por quem estiver a sua volta. É o que lhe desejo do fundo do meu coração.

Quanto a mim, minha capacidade de amar está muito bem guardada. Impermeabilizada do risco de se contaminar com tudo isso. E é disso que vou cuidar. Já a resgatei uma vez, regato-a tantas quantas forem necessárias.

Assim para o bem, como também para o mal: "tem tanto sentimento, deve ter algum que sirva..."


27 de jul. de 2011

Uma reza pra um marujo que se preza....

Dos encontros e reencontros: mais sobre a verdade simples...

Quem foi que disse que a gente só reencontra pessoas? Os lugares também são objeto de reencontro, e travam com nossos sentidos outra forma de diálogo.  Talvez perceptível para poucos, mas o desejo de apresentar aquele velho lugar à nova pessoa que me tornei nos últimos cinco anos, me dava a certeza de não ter dores de estômago na hora do pouso.

E descobri que não era mais um velho lugar... eramos todos novos.

E lá, também encontros com pessoas. Amigos queridos, momentos ternos, sutis, e leves. E uma busca mais especial do que as outras. Quase o objetivo pessoal de estar ali. Liguei e não atendeu. Atendeu dentro de mim um diabinho que falava - não vai rolar, essa expectativa de encontro é só sua. Da outra parte o que tem é uma falsa cordialidade. Você não deve merecer mesmo tanta atenção assim, ainda mais se magoou alguém na vida. Ora pois. Uma ansiedade me tomou o corpo e tudo o que pude fazer diante de sua grandiosidade foi me aquietar. Aquele lugar de não merecedora não me servia mais. Deitei, fiquei uns minutos em silêncio, os minutos viraram a tarde toda. E com o passar das horas, se enumeravam em mim os movimentos alheios. Um e-mail, uma visita, outros e-mails, uma conversa por telefone, um pedido pra que eu desse notícias. Será que tudo aquilo seria uma farsa? Ops! Havia realmente algo errado. Eu não dava mais conta daquilo. 17 horas e eu precisava tomar uma decisão. Já era sexta-feira, e eu estava ali desde a quarta, no mais absoluto silêncio, escondida em atividades profissionais que, na verdade, não me impediam de fazer contato.

Decidi não ligar mais. Pois é. Resolvi mandar mensagem. Escrever, falar do meu desejo, do meu desencontro e assinar a minha mensagem. Só assim, a outra parte poderia fazer escolhas, e a sabotagem de outrora poderia ter sido simplesmente estar dirigindo, estar em uma reunião, ou um mero esquecimento do celular no fundo da bolsa.

Aquela decisão me libertou. Uma sensação de limpeza na alma, de alegria, de sei lá mais que cores e temperaturas de sentimentos bons me invadiram. Mandei a mensagem. A resposta? Essa veio na hora! Onde você tá? E depois outra: "O que vai fazer?" E trocamos muitas mensagens até chegarmos a um denominador comum: sábado, um café. Como mencionado no e-mail de março.

E chegou o sábado. Havia uma ansiedade, uma alegria no coração. Uma certeza de que um afeto importante e sincero, quase inconsciente se aflorava como novo. Não tinhamos papéis. Eramos apenas duas mulheres nos encontrando. ex-amigas-futura. Uma apresentação que se atualizava a cada fala. Começando como quem lê uma partitura com toques mais amenos, os violinos, os clarinetes, as flautas, sutileza cuidadosa sem perder por um minuto que fosse a naturalidade da energia que se instaurou entre nós. Era tudo de verdade. E era tudo merecido pra nós duas. Literalmente um encontro para matar as saudades.

E veio a noite, e nos juntamos a outros seres intensos. E veio o dia seguinte, e nos juntamos aos sabores dos nossos lugares de origem. E veio a despedida, e o carinho e vieram as certezas...

Conversas difíceis, talvez um dia, mas não precisarão mais ser difíceis. Podem ser apenas maduras, verdadeiras e objeto de expressão do mais profundo e respeitoso sentimento.

Hoje, um amigo amado de Recife me ligou. Estava aqui por uma noite e queria me encontrar. Achei que podia ser bom, mas havia indisposição para o programa. Mais fácil do que imaginava. Liguei: - quero lhe ver, mas não quero ir pro teatro. Só quero seu abraço. É isso.

Uma amiga entra na minha sala de trabalho e pergunta - "E aí, como foi?" Respondi: tou feliz... até agora ouço o eco do que eu falei. Não tinha essa clareza toda. Mas isso também é uma verdade simples e boa de acolher. Seja bem vinda.

26 de jul. de 2011

Silêncio, por favor...

Quem sabe de tudo, não fale 
Quem não sabe nada se cale!


Aí vem Paulinho da Viola e Marisa Monte, com uma música pra cantar o texto seguinte:

Entre o Silêncio e o Submeter-se

Do alto da minha vivência social, política, espiritual, feminista, feminina, e de tantas outras identidades que assumi no decorrer da vida, eu me dei conta que sempre olhei pra a expressão submissão como um termo pejorativo. Como algo que oprimisse, que relegasse a segundo plano, que subjugasse. Talvez em muitos contextos valham realmente esses sentidos. Mas ontem, em meio a um retorno emocionado de uma viagem feliz, e o grito da realidade do que - ainda - me espera no campo das relações de amizade, me foi apresentado um outro sentido para essa expressão.

"Ela não consegue submeter-se a você". Me disseram! Deu certo trabalho para entender o que isso queria dizer, até que - bingo. Mais um ingrediente se soma a tantos aprendizados do que venho tendo no campo da construção das amizades. Diante do inoportuno: o silêncio.




Submeter-se aos limites explícitos ou implícitos dos outros é mais que um código velado da solidificação das relações, talvez possa mesmo figurar quase como norma social. Já parou para pensar no prazer de merecer a confiança de alguém querido? Lembra daquele momento em que fez toda a diferança uma colega meio fechada te chamar para uma conversa e abrir o coração em desabafos sobre sua própria vida?  Isso sem sequer ter de se preocupar em pedir constrangida: " - por favor, gostaria que isso ficasse só entre nós"..

Porque no pacote da relação já está incluído o bom senso da outra pessoa. Nada pode ser mais confortante.
Há porém quem em nome de sei lá eu o que, invade, coloca o dedo na ferida, especula a sua intimidade e lhe lembra - " não esqueça - você está sofrendo, ein".  Por mais boa vontade que haja, eu tenho dificuldades em lidar com essas abordagens, se não for do lugar da carência alheia: preciso que você sofra, pra eu me afirmar equanto uma boa pessoa, enquanto alguém solidário, que se preocupa. E que talvez lá no fundo, precise que o outro continue sofrendo...

Talvez isso não seja consciente, talvez não haja má intenção.. Mas fere. Dói. E por mais que racionalmente compreenda, é importante deixar claro que compreender é muito diferente de me submeter, agora sim, sendo usado no sentido negativo da palavra.  Não quero o rótulo de vitima indigesta, nem tudo de ruim que vivi comporá a minha identidade. Somos bem mais que a dor que nos afeta. E nunca é pouco lembrar.

23 de jul. de 2011

Das negociações com a verdade...

Um beijo por uma vida. Quantas vidas já valeram um beijo - por hora só lembro do episódio fatídico entre Judas, Jesus Cristo e os Soldados Romanos. Isso para me remeter às aulas de religião ou de história geral.  Para além disso me lembro de mim. E fico pensando o que na vida é desejável ou possível, ou às vezes imperiosamente necessário negociar para renascer.

No meu caso também fora um beijo. A despeito da traição do apostolo, nada poderia ser mais violento naquele momento. Nunca poderá se aproximar da idéia sinônima de uma manifestação de afeto. Mas fiquei pensando nas negociações.

Uma das reflexões que ganhou outra força em mim, foi da importância de usar a verdade. Não tou falando aqui da verdade dos fatos. Me refiro à verdade que brota do nosso coração e que é impossível não servirmos à ela. Foi com isso que negociei. Em algum momento não podia deixar que a mescla entre a ira descompensada e o afeto perdido em outros decidisse sobre o meu destino.

Foi ali que eu virei a intersecção. Foi ali que o apelo por alguma verdade veio à tona. Acreditá-la possível também foi algo mais forte do que eu. Não havia outra chance que não pedir. Diante da imposição de o que poderia ser um beijo, caso estivéssemos aqui falando de um vínculo afetivo, só restaria apelar para essa verdade.

A verdade que brota da alma. Era possível crer que ali existia uma alma. Não sei. Mas clamar por ela, pela verdade, mudou alguma energia. E a verdade me libertou. Agora, a noção de verdade muda. Porque aplaca a insegurança que muitas vezes gera competitividade, que gera necessidade de afirmação. A verdade virou um fim em si mesma, mas também virou um começo e um recomeço.

Agora urge outro desafio, o das verdades partilhadas na estrada que ressurge com outra luz, com outro vento, com outras sombras, com novas e velhas companhias, com outros túneis a serem atravessados. Que verdade se que dispor sozinho, para construir verdades coletivas. Quais são as negociações possíveis sem se perder de si. A negociação do experimentar, provavelmente. Eu ainda não sei. Mas quero tentar descobrir na vida nova.

22 de jul. de 2011

Entre o ódio e o não sentir deve haver alguma coisa que ainda não sei o nome...



Então, enquanto isso...

Esperança em capsulas...

Quando coisas ruins acontecem, o jeito é tomar uma dose cavalar de esperança em capsulas. É a única maneira de sobreviver. Não, isso não se confunde com uma postura Poliana. Não estou dizendo que sofrer é bom, que a dor é o único caminho de crescer e não estou necessariamente concordando com o que já cantou cazuza, que: "a dor no fundo esconde uma pontinha de prazer".

Mas é preciso acreditar em qualquer coisa mais à frente, para ter certeza de que a superação é possível e bem vinda. É preciso perceber as diferenças nos jeitos de ser, de fazer e de estar no mundo. É assim que a gente se reconhece outra.

Dentre as coisas bacanas, está a possibilidade de não querer ir para o lugar de vitima, mais do que as situações já fragilizem e já conduzam para esse lugar. Não precisa se ampliar o drama. Mas ao mesmo tempo, não se precisa negar a dor. É um desafio encontrar a medida certa entre uma alteração emocional e o que restou de nós. E o que restou não é pouco, e nem tampouco são sobras. Mas são as coisas que dizem da nossa inteireza. Principalmente porque há coisas que não foram afetadas e é bom demais reconhecê-las.

A despeito dessas letras virtualizadas, a reserva da partilha, o saber com quem e para que contar, em relação
a cada um que circula sua estrada, o chorar quando tem  que chorar, o assumir o choro preso quando não dá, mas o peito dói assim mesmo, e o sorrir diante de um renascimento, são velhas coisas feitas de novas formas. É engraçado e talvez, por vezes possa soar racional, que se valha de outras dores para tentar entender como sentir essa. E isso acaba fortalecendo.

É legal poder gritar socorro, e ter de ser ágil no grito, porque nesse momento não há tempo para mais frustrações. Não pode agora? Ok, nos vemos quando for possível. Quando for pra ser muito bom. Agora preciso de alguém que possa. Mas não há receitas, e isso não é uma tentativa de. A receita é o silêncio do sentir, o que bole por dentro, uma vida que pulsa forte, apesar de. Um compromisso com o viver  que dá a certeza dessa superação, de ser outra inteira, em breve, de gerar até certa ansiedade para conhecê-la.

Preciso acreditar que algo tão bom está para chegar, que coisas ruins precisaram acontecer, pra que certos aprendizados necessários ao usufruto delas, se dessem mais rápido. Não quero ser mártir, não quero ser vitima, mas quero me reconhecer, reconhecer o crescimento das minhas raízes e esperar a força que me permitirá abrir meus presentes...

21 de jul. de 2011

Simples conquistas...

Esses dias foram dedicados a fazer coisas simples. Na verdade, nunca pensei que elas trariam tanta alegria. Essa coisa de renascer desse jeito é trabalhosa. Mas em menos de 15 dias  já é possível fazer maquiagem, depilar as axilas e as pernas, fazer as sobrancelhas... Isso sem falar no que significa a delicadeza de tudo isso quando se renasce. É impressionante poder vibrar com a percepção da retomada de cada uma dessas coisas.

Uma viagem era, antes de qualquer coisa, a possibilidade de estar distante de qualquer memória de sofrimento. Aqui onde estou protegida, se falo das dores presentes é com a distância de como se elas tivessem passado. Silenciar certos assuntos é me perceber na ausência de algo que tanto me tomou... Não tenho as ilhas para ver, confesso que isso me conforta um tanto. Mas mesmo assim, mantenho-me fiel ao mar. Quando vejo as ilhas, ao longe, sempre lamento olhá-las com sensação de terror. Mas é o possível.

Estar onde estou agora, é a concretização da esperança de outrora, a certeza da não amargura, a clareza de que um dia não precisaria mais negar lugares, que conseguiria extrair de espaços outrora tristes, outros sentimentos. Assim é hoje com o cerrado, ainda não chegou a vez da Ilha. Não sei se vai chegar. Mas desejo, despretenciosamente e com alguma ansiedade que chegue, não por nada, mas por saber ser capaz e querer ver as coisas acontecerem...por saber que essa chegada implica em outras anteriores, e igualmente importantes...

Aqui consegui até comprar roupas novas. Foi meio sem sentir. Mas  rapidamente essa consciência vem à tona, e aí - temos mais um simples motivo para comemorar.  Por enquanto ainda foi uma roupa que aquece, que protege, que não expõe, nem mostra. Mas que tem sua beleza num cinza silencioso e escuro, que a qualquer dia irá combinar com um batom vermelho carmim.

Do medo e da coragem....

19 de jul. de 2011

Da delicadeza do corpo...

“Às vezes, a alma está na pele”. Diria Arnaldo Antunes.  Nunca em toda a vida tive tanta clareza do que isso pode significar. A sensação intensa é de haver uma lenta vibração de reconexão com esse corpo em que habito, tentando, quem sabe torná-lo coerente com o que dessarumei e com o que arrumei em minha cabeça. O pensar e o sentir tem se desencontrado. E nesse momento, urge olhar pra o sentir com mais força do que tentar me entender pensando... 

Ainda há sensações ruins. Ainda há o que não reaprendi a fazer, ainda há certa falta de coragem. Mas já consigo pintar o rosto. No decorrer da semana, não havia muito reconhecimento no olhar. Aquela imagem refletida no espelho, por vezes podia ser também um quadro na parede. Um sentimento de beleza roubada afetava a atmosfera. Como usar uma roupa nova, em um corpo que não se conforma e uma cabeça inconformada?

As simples escolhas estéticas cotidianas são cada vez mais marcadas por outros critérios. O que expor, e o que mostrar? Há diferença nessas duas expressões. Talvez não para o Aurélio, mas pessoalmente passou a ter. Expor virou apenas deixar, deixar livre. Mostrar implica na expectativa que seja visto.  E definitivamente não quero mostrar ainda esse corpo que ainda se descasca do ressecamento da pele, após “o parto”. E assim escolho as roupas agora – pelo critério do que consigo expor, pelo critério do que não quero mostrar. É interessante não ter perdido o senso estético. Sinal talvez que a velha vaidade e a prazerosa noção de auto-cuidado ainda continuem lá, apesar de...  Outra noite até pus um vestido. Consegui fazer maquiagem, deixar o cabelo ficar mais solto, e até mesmo me sentir bonita, a despeito das pernas desidratadas.

Ainda falta a depilação, a hidratação do corpo e do cabelo, ainda faltam às unhas. Mas a sobrancelha está alinhada. É inimaginável a felicidade de conseguir, despistadamente, depilar as sobrancelhas. Foi como criança começando a andar, ainda sem consciência do seu movimento. Até que vem a clareza. Mais uma conquista.  É assim o aprendizado dessa nova relação. 






Entendi  ainda que para além de cuidar do pensar, cuidar do entender, era preciso cuidar do sentir. E cuidar do sentir envolve em perceber calor, frio, sede, fome, notar o chão frio que causa alergia, expirar até não ter mais ar, esvaziar tudo para se oxigenar com novo ar... Enfim, dar ao corpo a mesma proporção, a mesma intensidade de afeto, e a mesma condição de se rearrumar que damos à cabeça.


De presente a esse corpo, algumas sessões ede massagem. Afinal, ele precisa recompreender também o significado do toque. Não podia tencionar a cada um desses momentos, ou diante do carinho despretensioso de um amigo. Era um corpo recém nascido, assustado com tanta coisa nesse mundo, precisando tirar de si as marcas da sua morte.  Um corpo em carne viva. Acho que ia nascer ali uma nova pele. A outra, carbonizou-se em uma dor profunda, intensa... e a luta agora é pra deixar suas cinzas se espalharem ao vento, e ver cada centímetro dessa pele nascer, quem sabe junto com ela não nasçam asas, e a gente voe...