19 de jul. de 2011

Da delicadeza do corpo...

“Às vezes, a alma está na pele”. Diria Arnaldo Antunes.  Nunca em toda a vida tive tanta clareza do que isso pode significar. A sensação intensa é de haver uma lenta vibração de reconexão com esse corpo em que habito, tentando, quem sabe torná-lo coerente com o que dessarumei e com o que arrumei em minha cabeça. O pensar e o sentir tem se desencontrado. E nesse momento, urge olhar pra o sentir com mais força do que tentar me entender pensando... 

Ainda há sensações ruins. Ainda há o que não reaprendi a fazer, ainda há certa falta de coragem. Mas já consigo pintar o rosto. No decorrer da semana, não havia muito reconhecimento no olhar. Aquela imagem refletida no espelho, por vezes podia ser também um quadro na parede. Um sentimento de beleza roubada afetava a atmosfera. Como usar uma roupa nova, em um corpo que não se conforma e uma cabeça inconformada?

As simples escolhas estéticas cotidianas são cada vez mais marcadas por outros critérios. O que expor, e o que mostrar? Há diferença nessas duas expressões. Talvez não para o Aurélio, mas pessoalmente passou a ter. Expor virou apenas deixar, deixar livre. Mostrar implica na expectativa que seja visto.  E definitivamente não quero mostrar ainda esse corpo que ainda se descasca do ressecamento da pele, após “o parto”. E assim escolho as roupas agora – pelo critério do que consigo expor, pelo critério do que não quero mostrar. É interessante não ter perdido o senso estético. Sinal talvez que a velha vaidade e a prazerosa noção de auto-cuidado ainda continuem lá, apesar de...  Outra noite até pus um vestido. Consegui fazer maquiagem, deixar o cabelo ficar mais solto, e até mesmo me sentir bonita, a despeito das pernas desidratadas.

Ainda falta a depilação, a hidratação do corpo e do cabelo, ainda faltam às unhas. Mas a sobrancelha está alinhada. É inimaginável a felicidade de conseguir, despistadamente, depilar as sobrancelhas. Foi como criança começando a andar, ainda sem consciência do seu movimento. Até que vem a clareza. Mais uma conquista.  É assim o aprendizado dessa nova relação. 






Entendi  ainda que para além de cuidar do pensar, cuidar do entender, era preciso cuidar do sentir. E cuidar do sentir envolve em perceber calor, frio, sede, fome, notar o chão frio que causa alergia, expirar até não ter mais ar, esvaziar tudo para se oxigenar com novo ar... Enfim, dar ao corpo a mesma proporção, a mesma intensidade de afeto, e a mesma condição de se rearrumar que damos à cabeça.


De presente a esse corpo, algumas sessões ede massagem. Afinal, ele precisa recompreender também o significado do toque. Não podia tencionar a cada um desses momentos, ou diante do carinho despretensioso de um amigo. Era um corpo recém nascido, assustado com tanta coisa nesse mundo, precisando tirar de si as marcas da sua morte.  Um corpo em carne viva. Acho que ia nascer ali uma nova pele. A outra, carbonizou-se em uma dor profunda, intensa... e a luta agora é pra deixar suas cinzas se espalharem ao vento, e ver cada centímetro dessa pele nascer, quem sabe junto com ela não nasçam asas, e a gente voe...