9 de ago. de 2011

Do trocar a pele...

Trocar de pele nem sempre é fruto de escolhas. Às vezes a vida se aproxima como num temporal. Dificulta nossa caminhada, envolve o nosso corpo por lama e nos obriga a não correr, a andar devagar. Os galhos nas estradas nos arranham o corpo, e pancadas em pedras e troncos nos criam hematomas diversos. Aí chega ela, a violência que nos amarra, que nos fere a pele.
E assim começa um lento, ou não sei se lento, processo de troca. Ao voltar o sol, vemos claramente que não é possível restaurar aquela pele. Ali não há sutura, ali não há hidratação, não há bronzeamento. Há dois procedimentos - o tirar, definitivamente a pele - e isso dói. E o permanecer em carne viva, silenciosa, exercendo talvez o que é mais difícil das tarefas: esperar.
Tirar a pele e colocá-la para secar, em nada se confunde com poder vestí-la novamente. Agora, outras temperaturas, outras texturas perpassam aquele corpo. E a elas, uma nova pele precisa ser criada pelo tempo. Colocar a velha pele para secar só tem um propósito. Que ela não exale mal cheiro quando for lançada fora para sempre. Ninguém precisa conviver mais com ela. Vai se decompor, se reintegrar a natureza, quiçá virar adubo para fazer crescer outros seres, flores, frutos, capim que alimenta animais, cumprir outra função fora do corpo.
 Até lá, ficamos em carne viva. Uma sensação de exposição profunda nos inebria, então.
Tudo dói ao menor toque. O suave vento, aquele que outrora apenas refrescava o rosto em uma manhã de calor, agora dói, arde, queima aquela carne sensível.  E talvez prepare o corpo, resseque um pouco, para que ele crie a textura ideal de acolher a nova pele que nasce.
Em algumas partes do corpo, esse preparado todo incomoda ainda mais. E o mais difícil está posto. Não há o que fazer: é a espera, é o tempo, é a paciência.
Ajudam nisso tudo, o poder olhar para trás e poder tentar ver como outras esperas puderam ser válidas, o corpo brinca entre as entranhas de suas descobertas. Onde os bálsamos aliviam, onde ainda é território proibido. Como uma criança que aprende a andar, o passo a passo vai se instituindo. E vai driblando o medo, sentindo a dor como uma dor de prazer. Como quem pari a si mesmo e vai sentir novamente todas as sensações... e não se arruma para viver, simplesmente vive...