Uma vez um colega da escola me falou. " você não sabe o poder que você tem..." . Achei aquilo legal, importante, mas devo confessar que do alto dos meus mal vividos 14 anos de idade, não entendi. É isso, não entendi nada. Ali morou em mim uma adolescente com traços de rebeldia sem causa. Ou com uma causa tão cravada em seu íntimo que sequer conseguia externar para o mundo. Havia a força de um compromisso com a vida, lutando contra a prisão de uma culpa que lhe fora imputada e que por ela foi assimilada, de forma tal que a permissão para o seu próprio sentir tornou-se algo tão sofrido que só era possível em situações as mais extremadas.
Uma primeira ruptura, uma primeira morte para garantir algum renascimento foi necessária. Isso já foi aos 19. Depois, outras tantas pequenas mortes vieram. Com elas, diria Felipe Botelho, nada de sabotadores, mas as minhas próprias traições me acompanharam um punhado de tantas vezes e nem vou narrá-las aqui, pois de nada adianta reviver histórias que já estão tão assentadas em mim, fazendo parte do trajeto que já caminhei nessa estrada-terra.
Poder e controle são coisas diferentes. E longe de mim aqui querer estabelecer um glossário para pontuar o significado de cada uma dessas palavras. Nada de brigar com o Aurélio. A questão é maior. É o que controlar o sobre o que ter poder.
Em um único ano: uma morte, a ruptura de um processo de fantasias que, por pouco não se confunde com a perda de um amor, uma agressão. Nitroglicerina Pura para a explosão do olho de boi que gerou Séfora: a mulher fogo que brota de uma semente jogada ao mar, e que causa uma explosão de calor e luz. Enquanto a semente germina em contato com a água, peles duras se rompem pra dar lugar à raiz que brota, cascas amolecem e saem, num processo de mudança natural de pele, e tudo se inrompe e a compreensão do poder vem até a superfície do mar, e é isso que gera o fogo, não o fogo que incendeia e que destrói, não o fogo que se auto-consome e se reverte em cinzas, mas o fogo que clareia o caminho, o fogo que aquece do frio, que ilumina e que existe sem função, pura e simplesmente pela beleza do existir. O fogo de uma verdade interior que reverte o poder para si. Que muda o foco do controle. Estamos falando agora do controle de se dirigir a si próprio, e assim, por vezes, sem medo também se deixar levar. O desfoque das chamas, o que faz queimar é simplesmente querer ter poder sobre outro desejo que não o seu próprio, querer controlar o incontrolável. Isso é causador de um tipo de apego, de um tipo de posse, que só frustra, desagrega, e faz a vida empacar.
De repente, uma sensação forte de que entre tantas dores temporalmente próximas, envolvendo pessoas tão interconectadas entre si, só pode ter uma vinculação maior que simplesmente as coincidências da vida. Até porque não há coincidências. Na dificuldade de lidar, o ponto comum: ser um só ser leva a isso. Vamos usar a mesma ferramenta para todos os tratamentos. O querer ter poder sobre o incontrolável. Querer ter poder sobre a morte, querer ter poder sobre o amor que não brota em mim, querer ter poder sobre a violência gratuíta do mundo. "Isso não está acontecendo" não são palavras mágicas que controlam e revertem as situações de desconforto. O poder de não controlar talvez seja, de fato o maior de todos. O poder sobre o nosso próprio desejo deve ser, portanto, o único a ser cultivado. Isso não é desapego isso é desejo, e a clareza dos desejos é fundamental, mas tanto quanto ela, a certeza de que os desejos podem ser mudados a qualquer momento, sempre que o coração assim ordenar.