Quando nasci fui presa numa garrafa. Não, eu não era uma gênia, e não vim, necessariamente, para realizar desejo alheio algum... Mas foi assim que aconteceu: cachos no cabelo, laços de fita, "- feche as pernas, menina!" Cria da ditadura militar, tudo que me submetia gerava em mim uma suposta rebeldia que não tinha lugar, e na maioria das vezes era ininteligível para a maioria das pessoas.
Com o que não se sabe o que fazer, não se faz mesmo nada. Natural. Mas urgente também é, nesses casos, se busca formas de sobreviver a tudo isso e ainda tentar ser, apesar de. Não, não vou perder tempo aqui citando mais nenhuma das frases que são representativas da indústria de engarrafamento de gente. Mas são marcas difíceis de apagar, ainda que se saiba que o que importa é daqui pra frente e ainda que em algum momento a lucidez sobre o que se fazer com isso venha a tona.
Aí meia hora de choque, alguém balança a garrafa e você explode de uma vez só. Como quando se estoura uma Champagne, e quem está de fora grita com o barulho da rolha, busca com os olhos a sua direção, receia que ela bata nos olhos de alguém, e finge que se importa que todo aquele líquido de prazer possa molhar sua roupa nova, confeccionada para essa ocasião...
O banho de espuma que ali surge é sempre uma centelha de esperança de uma vida nova que começa. Quem se importa com o carpete indiano? Quem se importa com o respingo nas paredes? Quem quer saber do lustre de cristal? Atentar tanto para isso é manter-se na garrafa. E manter-se na garrafa é tão somente se constituir enfeite do status alheio.
Bom mesmo é ver a espuma entrar em erupção e jorrar, jorrar muito, molhar quem está por perto, bom mesmo é encher as taças imaginárias, cristal, copos de geléia, de que interessa? O importante mesmo é o sabor que tudo isso vai ter. Bom mesmo é que essas celebrações sejam sempre coletivas, sempre pedem ao menos - outro alguém por perto. Outra taça... E quem sabe, outra garrafa, outro estouro único.. E depois desse ritual interno, tim tim! Um brinde!
