Quem foi que disse que a gente só reencontra pessoas? Os lugares também são objeto de reencontro, e travam com nossos sentidos outra forma de diálogo. Talvez perceptível para poucos, mas o desejo de apresentar aquele velho lugar à nova pessoa que me tornei nos últimos cinco anos, me dava a certeza de não ter dores de estômago na hora do pouso.
E descobri que não era mais um velho lugar... eramos todos novos.
E lá, também encontros com pessoas. Amigos queridos, momentos ternos, sutis, e leves. E uma busca mais especial do que as outras. Quase o objetivo pessoal de estar ali. Liguei e não atendeu. Atendeu dentro de mim um diabinho que falava - não vai rolar, essa expectativa de encontro é só sua. Da outra parte o que tem é uma falsa cordialidade. Você não deve merecer mesmo tanta atenção assim, ainda mais se magoou alguém na vida. Ora pois. Uma ansiedade me tomou o corpo e tudo o que pude fazer diante de sua grandiosidade foi me aquietar. Aquele lugar de não merecedora não me servia mais. Deitei, fiquei uns minutos em silêncio, os minutos viraram a tarde toda. E com o passar das horas, se enumeravam em mim os movimentos alheios. Um e-mail, uma visita, outros e-mails, uma conversa por telefone, um pedido pra que eu desse notícias. Será que tudo aquilo seria uma farsa? Ops! Havia realmente algo errado. Eu não dava mais conta daquilo. 17 horas e eu precisava tomar uma decisão. Já era sexta-feira, e eu estava ali desde a quarta, no mais absoluto silêncio, escondida em atividades profissionais que, na verdade, não me impediam de fazer contato.
Decidi não ligar mais. Pois é. Resolvi mandar mensagem. Escrever, falar do meu desejo, do meu desencontro e assinar a minha mensagem. Só assim, a outra parte poderia fazer escolhas, e a sabotagem de outrora poderia ter sido simplesmente estar dirigindo, estar em uma reunião, ou um mero esquecimento do celular no fundo da bolsa.
Aquela decisão me libertou. Uma sensação de limpeza na alma, de alegria, de sei lá mais que cores e temperaturas de sentimentos bons me invadiram. Mandei a mensagem. A resposta? Essa veio na hora! Onde você tá? E depois outra: "O que vai fazer?" E trocamos muitas mensagens até chegarmos a um denominador comum: sábado, um café. Como mencionado no e-mail de março.
E chegou o sábado. Havia uma ansiedade, uma alegria no coração. Uma certeza de que um afeto importante e sincero, quase inconsciente se aflorava como novo. Não tinhamos papéis. Eramos apenas duas mulheres nos encontrando. ex-amigas-futura. Uma apresentação que se atualizava a cada fala. Começando como quem lê uma partitura com toques mais amenos, os violinos, os clarinetes, as flautas, sutileza cuidadosa sem perder por um minuto que fosse a naturalidade da energia que se instaurou entre nós. Era tudo de verdade. E era tudo merecido pra nós duas. Literalmente um encontro para matar as saudades.
E veio a noite, e nos juntamos a outros seres intensos. E veio o dia seguinte, e nos juntamos aos sabores dos nossos lugares de origem. E veio a despedida, e o carinho e vieram as certezas...
Conversas difíceis, talvez um dia, mas não precisarão mais ser difíceis. Podem ser apenas maduras, verdadeiras e objeto de expressão do mais profundo e respeitoso sentimento.
Hoje, um amigo amado de Recife me ligou. Estava aqui por uma noite e queria me encontrar. Achei que podia ser bom, mas havia indisposição para o programa. Mais fácil do que imaginava. Liguei: - quero lhe ver, mas não quero ir pro teatro. Só quero seu abraço. É isso.
Uma amiga entra na minha sala de trabalho e pergunta - "E aí, como foi?" Respondi: tou feliz... até agora ouço o eco do que eu falei. Não tinha essa clareza toda. Mas isso também é uma verdade simples e boa de acolher. Seja bem vinda.