Comecei a ler o texto da Eliane Brum, a "Vitima Indigesta". Sobre a garota austríaca que ficou por oito anos no cativeiro de um sequestrador. Parei na parte do perdão e da contemporização do algoz, quase transformado em vitima. Mesmo que racionalmente (e em condições normais) consiga entender que os argumentos dela tem razão de ser. Não quero sentir nada parecido ainda.
Vitimizar os algozes foi algo que já fiz e paguei caro. Fiz inclusive com os afetos por quem me deixei violentar. Não posso cotinuar a ler agora o tal texto, não acredito naquilo. Adorei a explicação de uma amiga psicóloga: "ela criou um jeito de não enlouquecer". Assim consigo me sentir mais identificada.
Não acredito em perdão sem culpa. Perdão é antes de tudo um exercício de poder, de alguém que está socialmente no lugar de vitima, para alguém que ocupou o espaço de algoz. Mas antes de tudo, não acredito no perdão sem a raiva, sem o ódio. Nem sequer consigo pensar em perdão. Mas consigo pensar em atingir um dia o estágio de indiferença tal que isso não ferre com os meus outros bons afetos nessa vida.
Talvez seja difícil para as pessoas lerem isso, porque a vítima está frágil o suficiente para não ameaçar. Então é mais bonitinho ser vitima. Desperta o autruísmo alheio e os mais co-dependentes podem até mostrar o quão solidários podem ser nesse momento. Mesmo que alguns, para isso, precisem lhe ferir mais um pouquinho. Já aquele que tem ódio, definitivamente pode ser um perigo para a sociedade.
Tenho muitas fantasias do que faria se encontrasse esse algoz em meu caminho. Não, não acho que o machucaria, mas adoraria por meu pé sobre o seu pescoço, é, sem machucar mesmo, mas apenas para humilhá-lo com um simbolismo de força física, outrossim, seria de um imenso prazer cuspir-lhe o rosto e falar-lhe sobre como deve ser triste para um homem não conseguir conquistar o afeto de ninguém e precisar de uma faca e tanta força física para conseguir "um beijo". Adoraria falar da sua fraqueza de caráter, da sua covardia, e do imenso e profundo nojo que sinto dele.
Se isso iria servir para esse ser, definitivamente eu não sei. Mas estou tão centrada em mim, que pouco me importaria. Interessa-me o efeito catártico sobre mim mesma. Já se passaram os dias em que inventar polianices para essa situação supriria o assumir esse sentimento tão negado socialmente.
A mim interessa a catarse que isso me traria. A sensação de fazer justiça. Vê-lo atrás das grades seria de um prazer inenarrável, mas falta-me forças para tantas mobilizações num estado que não garante a retaguarda necessária.
Minha reverência, respeito e profundo reconhecimento aos direitos humanos estão de férias por um tempo. Agora já tenho certeza que não vou enlouquecer. Agora já posso odiar. Me autorizei. Depois, quem sabe coloco isso em um lugar menos desconfortável, que não atrapalhe meu caminho pelo mundo...
Quanto ao castigo desse indivíduo, na impossibilidade de materializar o meu sentir, que morra lentamente, porque não se dá a morte tão facilmente assim, de preferência de uma doença que ele próprio cultive em seu corpo e que lhe traga muita dor, e que esteja bem lúcido para sentir tudo com rigor de detalhes. Que seu corpo lhe devolva os requintes de crueldade que usou comigo, e que seja bem desprezado por quem estiver a sua volta. É o que lhe desejo do fundo do meu coração.
Quanto a mim, minha capacidade de amar está muito bem guardada. Impermeabilizada do risco de se contaminar com tudo isso. E é disso que vou cuidar. Já a resgatei uma vez, regato-a tantas quantas forem necessárias.
