31 de jul. de 2011

Minha Oração

Por Ana Luísa Fagundes


Deus, dê-me SERENIDADE para aceitar aquilo que não posso mudar. CORAGEM para mudar o que posso e  SABEDORIA para reconhecer a diferença.

CURA espiritual, emocional, relacional e física. PRAZER com as pequenas coisas, as grandes coisas, com meu corpo, com as pessoas e com o mundo. EQUILÍBRIO energético, organização interna, clareza do que quero, do que sou, do sentido das coisas para mim, possibilidade de desacelerar a vida, respeitar os tempos das coisas, os acontecimentos, o desacelerar a vida, o meu modo de ser e o modo de ser das outras pessoas.

FIRMEZA e VITALIDADE corporal, energética e espiritual para enfrentar os embates necessários, sem esmaecer, ser tomada por eles, ou cair no ceticismo. AMOR, abertura para amar e ser amada, tocar e ser tocada sem receios e sem dependências, aceitando de verdade os meus limites e os limites das outras pessoas.

Possibilidade de levar para as outras pessoas  alegria, leveza, criticidade, desejo de transformação social e pessoal, amor, acolhimento e de expressar minha beleza. É isso o que busco na vida, são com essas coisas que quero sintonizar e ser agraciada.

E que assim seja. 

Meu caminho pelo mundo, eu mesmo traço....

Comecei a ler o texto da Eliane Brum, a "Vitima Indigesta". Sobre a garota austríaca que ficou por oito anos no cativeiro de um sequestrador. Parei na parte do perdão e da contemporização do algoz, quase transformado em vitima. Mesmo que racionalmente (e em condições normais) consiga entender que os argumentos dela tem razão de ser. Não quero sentir nada parecido ainda.

Vitimizar os algozes foi algo que já fiz e paguei caro. Fiz inclusive com os afetos por quem me deixei violentar. Não posso cotinuar a ler agora o tal texto, não acredito naquilo. Adorei a explicação de uma amiga psicóloga: "ela criou um jeito de não enlouquecer". Assim consigo me sentir mais identificada.

Não acredito em perdão sem culpa. Perdão é antes de tudo um exercício de poder, de alguém que está socialmente no lugar de vitima, para alguém que ocupou o espaço de algoz. Mas antes de tudo, não acredito no perdão sem a raiva, sem o ódio. Nem sequer consigo pensar em perdão. Mas consigo pensar em atingir um dia o estágio de indiferença tal que isso não ferre com os meus outros bons afetos nessa vida.

Talvez seja difícil para as pessoas lerem isso, porque a vítima está frágil o suficiente para não ameaçar.  Então é mais bonitinho ser vitima. Desperta o autruísmo alheio e os mais co-dependentes podem até mostrar o quão solidários podem ser nesse momento. Mesmo que alguns, para isso, precisem lhe ferir mais um pouquinho. Já aquele que tem ódio, definitivamente pode ser um perigo para a sociedade.

Tenho muitas fantasias do que faria se encontrasse esse algoz em meu caminho.  Não, não acho que o machucaria, mas adoraria por meu pé sobre o seu pescoço, é, sem machucar mesmo, mas apenas para humilhá-lo com um simbolismo de força física, outrossim, seria de um imenso prazer cuspir-lhe o rosto e falar-lhe sobre como deve ser triste para um homem não conseguir conquistar o afeto de ninguém e precisar de uma faca e tanta força física para conseguir "um beijo". Adoraria falar da sua fraqueza de caráter, da sua covardia, e do imenso e profundo nojo que sinto dele.



Se isso iria servir para esse ser, definitivamente eu não sei. Mas estou tão centrada em mim, que pouco me importaria. Interessa-me o efeito catártico sobre mim mesma. Já se passaram os dias em que inventar polianices para essa situação supriria o assumir esse sentimento tão negado socialmente.

A mim interessa a catarse que isso me traria. A sensação de fazer justiça. Vê-lo atrás das grades seria de um prazer inenarrável, mas falta-me forças para tantas mobilizações num estado que não garante a retaguarda necessária.

Minha reverência, respeito e profundo reconhecimento aos direitos humanos estão de férias por um tempo. Agora já tenho certeza que não vou enlouquecer. Agora já posso odiar. Me autorizei. Depois, quem sabe coloco isso em um lugar menos desconfortável, que não atrapalhe meu caminho pelo mundo...

Quanto ao castigo desse indivíduo, na impossibilidade de materializar o meu sentir, que morra lentamente, porque não se dá a morte tão facilmente assim, de preferência de uma doença que ele próprio cultive em seu corpo e que lhe traga muita dor, e que esteja bem lúcido para sentir tudo com rigor de detalhes. Que seu corpo lhe devolva os requintes de crueldade que usou comigo,  e que seja bem desprezado por quem estiver a sua volta. É o que lhe desejo do fundo do meu coração.

Quanto a mim, minha capacidade de amar está muito bem guardada. Impermeabilizada do risco de se contaminar com tudo isso. E é disso que vou cuidar. Já a resgatei uma vez, regato-a tantas quantas forem necessárias.

Assim para o bem, como também para o mal: "tem tanto sentimento, deve ter algum que sirva..."


27 de jul. de 2011

Uma reza pra um marujo que se preza....

Dos encontros e reencontros: mais sobre a verdade simples...

Quem foi que disse que a gente só reencontra pessoas? Os lugares também são objeto de reencontro, e travam com nossos sentidos outra forma de diálogo.  Talvez perceptível para poucos, mas o desejo de apresentar aquele velho lugar à nova pessoa que me tornei nos últimos cinco anos, me dava a certeza de não ter dores de estômago na hora do pouso.

E descobri que não era mais um velho lugar... eramos todos novos.

E lá, também encontros com pessoas. Amigos queridos, momentos ternos, sutis, e leves. E uma busca mais especial do que as outras. Quase o objetivo pessoal de estar ali. Liguei e não atendeu. Atendeu dentro de mim um diabinho que falava - não vai rolar, essa expectativa de encontro é só sua. Da outra parte o que tem é uma falsa cordialidade. Você não deve merecer mesmo tanta atenção assim, ainda mais se magoou alguém na vida. Ora pois. Uma ansiedade me tomou o corpo e tudo o que pude fazer diante de sua grandiosidade foi me aquietar. Aquele lugar de não merecedora não me servia mais. Deitei, fiquei uns minutos em silêncio, os minutos viraram a tarde toda. E com o passar das horas, se enumeravam em mim os movimentos alheios. Um e-mail, uma visita, outros e-mails, uma conversa por telefone, um pedido pra que eu desse notícias. Será que tudo aquilo seria uma farsa? Ops! Havia realmente algo errado. Eu não dava mais conta daquilo. 17 horas e eu precisava tomar uma decisão. Já era sexta-feira, e eu estava ali desde a quarta, no mais absoluto silêncio, escondida em atividades profissionais que, na verdade, não me impediam de fazer contato.

Decidi não ligar mais. Pois é. Resolvi mandar mensagem. Escrever, falar do meu desejo, do meu desencontro e assinar a minha mensagem. Só assim, a outra parte poderia fazer escolhas, e a sabotagem de outrora poderia ter sido simplesmente estar dirigindo, estar em uma reunião, ou um mero esquecimento do celular no fundo da bolsa.

Aquela decisão me libertou. Uma sensação de limpeza na alma, de alegria, de sei lá mais que cores e temperaturas de sentimentos bons me invadiram. Mandei a mensagem. A resposta? Essa veio na hora! Onde você tá? E depois outra: "O que vai fazer?" E trocamos muitas mensagens até chegarmos a um denominador comum: sábado, um café. Como mencionado no e-mail de março.

E chegou o sábado. Havia uma ansiedade, uma alegria no coração. Uma certeza de que um afeto importante e sincero, quase inconsciente se aflorava como novo. Não tinhamos papéis. Eramos apenas duas mulheres nos encontrando. ex-amigas-futura. Uma apresentação que se atualizava a cada fala. Começando como quem lê uma partitura com toques mais amenos, os violinos, os clarinetes, as flautas, sutileza cuidadosa sem perder por um minuto que fosse a naturalidade da energia que se instaurou entre nós. Era tudo de verdade. E era tudo merecido pra nós duas. Literalmente um encontro para matar as saudades.

E veio a noite, e nos juntamos a outros seres intensos. E veio o dia seguinte, e nos juntamos aos sabores dos nossos lugares de origem. E veio a despedida, e o carinho e vieram as certezas...

Conversas difíceis, talvez um dia, mas não precisarão mais ser difíceis. Podem ser apenas maduras, verdadeiras e objeto de expressão do mais profundo e respeitoso sentimento.

Hoje, um amigo amado de Recife me ligou. Estava aqui por uma noite e queria me encontrar. Achei que podia ser bom, mas havia indisposição para o programa. Mais fácil do que imaginava. Liguei: - quero lhe ver, mas não quero ir pro teatro. Só quero seu abraço. É isso.

Uma amiga entra na minha sala de trabalho e pergunta - "E aí, como foi?" Respondi: tou feliz... até agora ouço o eco do que eu falei. Não tinha essa clareza toda. Mas isso também é uma verdade simples e boa de acolher. Seja bem vinda.

26 de jul. de 2011

Silêncio, por favor...

Quem sabe de tudo, não fale 
Quem não sabe nada se cale!


Aí vem Paulinho da Viola e Marisa Monte, com uma música pra cantar o texto seguinte:

Entre o Silêncio e o Submeter-se

Do alto da minha vivência social, política, espiritual, feminista, feminina, e de tantas outras identidades que assumi no decorrer da vida, eu me dei conta que sempre olhei pra a expressão submissão como um termo pejorativo. Como algo que oprimisse, que relegasse a segundo plano, que subjugasse. Talvez em muitos contextos valham realmente esses sentidos. Mas ontem, em meio a um retorno emocionado de uma viagem feliz, e o grito da realidade do que - ainda - me espera no campo das relações de amizade, me foi apresentado um outro sentido para essa expressão.

"Ela não consegue submeter-se a você". Me disseram! Deu certo trabalho para entender o que isso queria dizer, até que - bingo. Mais um ingrediente se soma a tantos aprendizados do que venho tendo no campo da construção das amizades. Diante do inoportuno: o silêncio.




Submeter-se aos limites explícitos ou implícitos dos outros é mais que um código velado da solidificação das relações, talvez possa mesmo figurar quase como norma social. Já parou para pensar no prazer de merecer a confiança de alguém querido? Lembra daquele momento em que fez toda a diferança uma colega meio fechada te chamar para uma conversa e abrir o coração em desabafos sobre sua própria vida?  Isso sem sequer ter de se preocupar em pedir constrangida: " - por favor, gostaria que isso ficasse só entre nós"..

Porque no pacote da relação já está incluído o bom senso da outra pessoa. Nada pode ser mais confortante.
Há porém quem em nome de sei lá eu o que, invade, coloca o dedo na ferida, especula a sua intimidade e lhe lembra - " não esqueça - você está sofrendo, ein".  Por mais boa vontade que haja, eu tenho dificuldades em lidar com essas abordagens, se não for do lugar da carência alheia: preciso que você sofra, pra eu me afirmar equanto uma boa pessoa, enquanto alguém solidário, que se preocupa. E que talvez lá no fundo, precise que o outro continue sofrendo...

Talvez isso não seja consciente, talvez não haja má intenção.. Mas fere. Dói. E por mais que racionalmente compreenda, é importante deixar claro que compreender é muito diferente de me submeter, agora sim, sendo usado no sentido negativo da palavra.  Não quero o rótulo de vitima indigesta, nem tudo de ruim que vivi comporá a minha identidade. Somos bem mais que a dor que nos afeta. E nunca é pouco lembrar.

23 de jul. de 2011

Das negociações com a verdade...

Um beijo por uma vida. Quantas vidas já valeram um beijo - por hora só lembro do episódio fatídico entre Judas, Jesus Cristo e os Soldados Romanos. Isso para me remeter às aulas de religião ou de história geral.  Para além disso me lembro de mim. E fico pensando o que na vida é desejável ou possível, ou às vezes imperiosamente necessário negociar para renascer.

No meu caso também fora um beijo. A despeito da traição do apostolo, nada poderia ser mais violento naquele momento. Nunca poderá se aproximar da idéia sinônima de uma manifestação de afeto. Mas fiquei pensando nas negociações.

Uma das reflexões que ganhou outra força em mim, foi da importância de usar a verdade. Não tou falando aqui da verdade dos fatos. Me refiro à verdade que brota do nosso coração e que é impossível não servirmos à ela. Foi com isso que negociei. Em algum momento não podia deixar que a mescla entre a ira descompensada e o afeto perdido em outros decidisse sobre o meu destino.

Foi ali que eu virei a intersecção. Foi ali que o apelo por alguma verdade veio à tona. Acreditá-la possível também foi algo mais forte do que eu. Não havia outra chance que não pedir. Diante da imposição de o que poderia ser um beijo, caso estivéssemos aqui falando de um vínculo afetivo, só restaria apelar para essa verdade.

A verdade que brota da alma. Era possível crer que ali existia uma alma. Não sei. Mas clamar por ela, pela verdade, mudou alguma energia. E a verdade me libertou. Agora, a noção de verdade muda. Porque aplaca a insegurança que muitas vezes gera competitividade, que gera necessidade de afirmação. A verdade virou um fim em si mesma, mas também virou um começo e um recomeço.

Agora urge outro desafio, o das verdades partilhadas na estrada que ressurge com outra luz, com outro vento, com outras sombras, com novas e velhas companhias, com outros túneis a serem atravessados. Que verdade se que dispor sozinho, para construir verdades coletivas. Quais são as negociações possíveis sem se perder de si. A negociação do experimentar, provavelmente. Eu ainda não sei. Mas quero tentar descobrir na vida nova.

22 de jul. de 2011

Entre o ódio e o não sentir deve haver alguma coisa que ainda não sei o nome...



Então, enquanto isso...

Esperança em capsulas...

Quando coisas ruins acontecem, o jeito é tomar uma dose cavalar de esperança em capsulas. É a única maneira de sobreviver. Não, isso não se confunde com uma postura Poliana. Não estou dizendo que sofrer é bom, que a dor é o único caminho de crescer e não estou necessariamente concordando com o que já cantou cazuza, que: "a dor no fundo esconde uma pontinha de prazer".

Mas é preciso acreditar em qualquer coisa mais à frente, para ter certeza de que a superação é possível e bem vinda. É preciso perceber as diferenças nos jeitos de ser, de fazer e de estar no mundo. É assim que a gente se reconhece outra.

Dentre as coisas bacanas, está a possibilidade de não querer ir para o lugar de vitima, mais do que as situações já fragilizem e já conduzam para esse lugar. Não precisa se ampliar o drama. Mas ao mesmo tempo, não se precisa negar a dor. É um desafio encontrar a medida certa entre uma alteração emocional e o que restou de nós. E o que restou não é pouco, e nem tampouco são sobras. Mas são as coisas que dizem da nossa inteireza. Principalmente porque há coisas que não foram afetadas e é bom demais reconhecê-las.

A despeito dessas letras virtualizadas, a reserva da partilha, o saber com quem e para que contar, em relação
a cada um que circula sua estrada, o chorar quando tem  que chorar, o assumir o choro preso quando não dá, mas o peito dói assim mesmo, e o sorrir diante de um renascimento, são velhas coisas feitas de novas formas. É engraçado e talvez, por vezes possa soar racional, que se valha de outras dores para tentar entender como sentir essa. E isso acaba fortalecendo.

É legal poder gritar socorro, e ter de ser ágil no grito, porque nesse momento não há tempo para mais frustrações. Não pode agora? Ok, nos vemos quando for possível. Quando for pra ser muito bom. Agora preciso de alguém que possa. Mas não há receitas, e isso não é uma tentativa de. A receita é o silêncio do sentir, o que bole por dentro, uma vida que pulsa forte, apesar de. Um compromisso com o viver  que dá a certeza dessa superação, de ser outra inteira, em breve, de gerar até certa ansiedade para conhecê-la.

Preciso acreditar que algo tão bom está para chegar, que coisas ruins precisaram acontecer, pra que certos aprendizados necessários ao usufruto delas, se dessem mais rápido. Não quero ser mártir, não quero ser vitima, mas quero me reconhecer, reconhecer o crescimento das minhas raízes e esperar a força que me permitirá abrir meus presentes...

21 de jul. de 2011

Simples conquistas...

Esses dias foram dedicados a fazer coisas simples. Na verdade, nunca pensei que elas trariam tanta alegria. Essa coisa de renascer desse jeito é trabalhosa. Mas em menos de 15 dias  já é possível fazer maquiagem, depilar as axilas e as pernas, fazer as sobrancelhas... Isso sem falar no que significa a delicadeza de tudo isso quando se renasce. É impressionante poder vibrar com a percepção da retomada de cada uma dessas coisas.

Uma viagem era, antes de qualquer coisa, a possibilidade de estar distante de qualquer memória de sofrimento. Aqui onde estou protegida, se falo das dores presentes é com a distância de como se elas tivessem passado. Silenciar certos assuntos é me perceber na ausência de algo que tanto me tomou... Não tenho as ilhas para ver, confesso que isso me conforta um tanto. Mas mesmo assim, mantenho-me fiel ao mar. Quando vejo as ilhas, ao longe, sempre lamento olhá-las com sensação de terror. Mas é o possível.

Estar onde estou agora, é a concretização da esperança de outrora, a certeza da não amargura, a clareza de que um dia não precisaria mais negar lugares, que conseguiria extrair de espaços outrora tristes, outros sentimentos. Assim é hoje com o cerrado, ainda não chegou a vez da Ilha. Não sei se vai chegar. Mas desejo, despretenciosamente e com alguma ansiedade que chegue, não por nada, mas por saber ser capaz e querer ver as coisas acontecerem...por saber que essa chegada implica em outras anteriores, e igualmente importantes...

Aqui consegui até comprar roupas novas. Foi meio sem sentir. Mas  rapidamente essa consciência vem à tona, e aí - temos mais um simples motivo para comemorar.  Por enquanto ainda foi uma roupa que aquece, que protege, que não expõe, nem mostra. Mas que tem sua beleza num cinza silencioso e escuro, que a qualquer dia irá combinar com um batom vermelho carmim.

Do medo e da coragem....

19 de jul. de 2011

Da delicadeza do corpo...

“Às vezes, a alma está na pele”. Diria Arnaldo Antunes.  Nunca em toda a vida tive tanta clareza do que isso pode significar. A sensação intensa é de haver uma lenta vibração de reconexão com esse corpo em que habito, tentando, quem sabe torná-lo coerente com o que dessarumei e com o que arrumei em minha cabeça. O pensar e o sentir tem se desencontrado. E nesse momento, urge olhar pra o sentir com mais força do que tentar me entender pensando... 

Ainda há sensações ruins. Ainda há o que não reaprendi a fazer, ainda há certa falta de coragem. Mas já consigo pintar o rosto. No decorrer da semana, não havia muito reconhecimento no olhar. Aquela imagem refletida no espelho, por vezes podia ser também um quadro na parede. Um sentimento de beleza roubada afetava a atmosfera. Como usar uma roupa nova, em um corpo que não se conforma e uma cabeça inconformada?

As simples escolhas estéticas cotidianas são cada vez mais marcadas por outros critérios. O que expor, e o que mostrar? Há diferença nessas duas expressões. Talvez não para o Aurélio, mas pessoalmente passou a ter. Expor virou apenas deixar, deixar livre. Mostrar implica na expectativa que seja visto.  E definitivamente não quero mostrar ainda esse corpo que ainda se descasca do ressecamento da pele, após “o parto”. E assim escolho as roupas agora – pelo critério do que consigo expor, pelo critério do que não quero mostrar. É interessante não ter perdido o senso estético. Sinal talvez que a velha vaidade e a prazerosa noção de auto-cuidado ainda continuem lá, apesar de...  Outra noite até pus um vestido. Consegui fazer maquiagem, deixar o cabelo ficar mais solto, e até mesmo me sentir bonita, a despeito das pernas desidratadas.

Ainda falta a depilação, a hidratação do corpo e do cabelo, ainda faltam às unhas. Mas a sobrancelha está alinhada. É inimaginável a felicidade de conseguir, despistadamente, depilar as sobrancelhas. Foi como criança começando a andar, ainda sem consciência do seu movimento. Até que vem a clareza. Mais uma conquista.  É assim o aprendizado dessa nova relação. 






Entendi  ainda que para além de cuidar do pensar, cuidar do entender, era preciso cuidar do sentir. E cuidar do sentir envolve em perceber calor, frio, sede, fome, notar o chão frio que causa alergia, expirar até não ter mais ar, esvaziar tudo para se oxigenar com novo ar... Enfim, dar ao corpo a mesma proporção, a mesma intensidade de afeto, e a mesma condição de se rearrumar que damos à cabeça.


De presente a esse corpo, algumas sessões ede massagem. Afinal, ele precisa recompreender também o significado do toque. Não podia tencionar a cada um desses momentos, ou diante do carinho despretensioso de um amigo. Era um corpo recém nascido, assustado com tanta coisa nesse mundo, precisando tirar de si as marcas da sua morte.  Um corpo em carne viva. Acho que ia nascer ali uma nova pele. A outra, carbonizou-se em uma dor profunda, intensa... e a luta agora é pra deixar suas cinzas se espalharem ao vento, e ver cada centímetro dessa pele nascer, quem sabe junto com ela não nasçam asas, e a gente voe...