21 de ago. de 2011

Sobre o engarrafamento de gente....

Quando nasci fui presa numa garrafa. Não, eu não era uma gênia, e não vim, necessariamente, para realizar desejo alheio algum... Mas foi assim que aconteceu: cachos no cabelo, laços de fita, "- feche as pernas, menina!" Cria da ditadura militar, tudo que me submetia gerava em mim uma suposta rebeldia que não tinha lugar, e na maioria das vezes era ininteligível para a maioria das pessoas.

Com o que não se sabe o que fazer, não se faz mesmo nada. Natural. Mas urgente também é, nesses casos, se busca formas de sobreviver a tudo isso e ainda tentar ser, apesar de. Não, não vou perder tempo aqui  citando mais nenhuma das frases que são representativas da indústria de engarrafamento de gente. Mas são marcas difíceis de apagar, ainda que se saiba que o que importa é daqui pra frente e ainda que em algum momento a lucidez sobre o que se fazer com isso venha a tona.


Aí meia hora de choque, alguém balança a garrafa e você explode de uma vez só. Como quando se estoura uma Champagne, e quem está de fora grita com o barulho da rolha, busca com os olhos a sua direção, receia que ela bata nos olhos de alguém, e finge que se importa que todo aquele líquido de prazer possa molhar sua roupa nova, confeccionada para essa ocasião...

O banho de espuma que ali surge é sempre uma centelha de esperança de uma vida nova que começa.  Quem se importa com o carpete indiano? Quem se importa com o respingo nas paredes? Quem quer saber do lustre de cristal? Atentar tanto para isso é manter-se na garrafa. E manter-se na garrafa é tão somente se constituir enfeite do status alheio.

Bom mesmo é ver a espuma entrar em erupção e jorrar, jorrar muito, molhar quem está por perto, bom mesmo é encher as taças imaginárias, cristal, copos de geléia, de que interessa? O importante mesmo é o sabor que tudo isso vai ter. Bom mesmo é que essas celebrações sejam sempre coletivas, sempre pedem ao menos - outro alguém por perto. Outra taça... E quem sabe, outra garrafa, outro estouro único.. E depois desse ritual interno, tim tim! Um brinde!

13 de ago. de 2011

Quando olhávamos juntos na mesma direção...


Um ano e meio antes de morrer, ou melhor, antes de renascer, já olhávamos juntos numa mesma direção. Seria já prevendo que uma conexão de energia maior nos envolveria e tornaria aquele contato inicial tão despretencioso uma cumplicidade tão grandiosa entre nós?

Sempre grata a esses dois queridos, por estarem por perto num momento crucial, em que urgia entrar em contato com tantos novos sentimentos. E grata por se reinventarem comigo, cada um a seu modo...

A foto é de Leonardo Cunha, em março de 2010 - São Tomé do Paripe - Salvador - BA.

12 de ago. de 2011

Nitroglicerina Pura...

Uma vez um colega da escola me falou. " você não sabe o poder que você tem..." .  Achei aquilo legal, importante, mas devo confessar que do alto dos meus mal vividos 14 anos de idade, não entendi. É isso, não entendi nada. Ali morou em mim uma adolescente com traços de rebeldia sem causa. Ou com uma causa tão cravada em seu íntimo que sequer  conseguia externar para o mundo. Havia a força de um compromisso com a vida, lutando contra a prisão de uma culpa que lhe fora imputada e que por ela foi assimilada, de forma tal que a permissão para o seu próprio sentir tornou-se algo tão sofrido que só era possível em situações as mais extremadas.

Uma primeira ruptura, uma primeira morte para garantir algum renascimento foi necessária. Isso já foi aos 19. Depois, outras tantas pequenas mortes vieram. Com elas, diria Felipe Botelho, nada de sabotadores, mas as minhas próprias traições me acompanharam um punhado de tantas vezes e nem vou narrá-las aqui, pois de nada adianta reviver histórias que já estão tão assentadas em mim, fazendo parte do trajeto que já caminhei nessa estrada-terra.

Poder e controle são coisas diferentes. E longe de mim aqui querer estabelecer um glossário para pontuar o significado de cada uma dessas palavras. Nada de brigar com o Aurélio. A questão é maior. É o que controlar o sobre o que ter poder.

Em um único ano: uma morte, a ruptura de um processo de fantasias que, por pouco não se confunde com a perda de um amor, uma agressão. Nitroglicerina Pura para a explosão do olho de boi que gerou Séfora: a mulher fogo que brota de uma semente jogada ao mar, e que causa uma explosão de calor e luz. Enquanto a semente germina em contato com a água, peles duras se rompem pra dar lugar à raiz que brota, cascas amolecem e saem, num processo de mudança natural de pele, e tudo se inrompe e a compreensão do poder vem até a superfície do mar, e é isso que gera o fogo, não o fogo que incendeia e que destrói, não o fogo que se auto-consome e se reverte em cinzas, mas o fogo que clareia o caminho, o fogo que aquece do frio, que ilumina e que existe sem função, pura e simplesmente pela beleza do existir. O fogo de uma verdade interior que reverte o poder para si. Que muda o foco do controle. Estamos falando agora do controle de se dirigir  a si próprio, e assim, por vezes, sem medo também se deixar levar.  O desfoque das chamas, o que faz queimar é simplesmente querer ter poder sobre outro desejo que não o seu próprio, querer controlar o incontrolável. Isso é causador de um tipo de apego, de um tipo de posse, que só frustra, desagrega, e faz a vida empacar.

De repente, uma sensação forte de que entre tantas dores temporalmente próximas, envolvendo pessoas tão interconectadas entre si, só pode ter uma vinculação maior que simplesmente as coincidências da vida. Até porque não há coincidências. Na dificuldade de lidar, o ponto comum: ser um só ser leva a isso. Vamos usar a mesma ferramenta para todos os tratamentos. O querer ter poder sobre o incontrolável. Querer ter poder sobre a morte, querer ter poder sobre o amor que não brota em mim, querer ter poder sobre a violência gratuíta do mundo. "Isso não está acontecendo" não são palavras mágicas que controlam e revertem as situações de desconforto. O poder de não controlar talvez seja, de fato o maior de todos. O poder sobre o nosso próprio desejo deve ser, portanto, o único a ser cultivado. Isso não é desapego isso é desejo, e a clareza dos desejos é fundamental, mas tanto quanto ela, a certeza de que os desejos podem ser mudados a qualquer momento, sempre que o coração assim ordenar.

9 de ago. de 2011

A primeira última oração...

Quando a morte se fez PRESENTE não havia o que fazer a não ser rezar. Na hora, foi difícil decidir pra quem, pra que entidade, pra que santo, pra que Deus, pra que Deusa... Não havia tempo. Passa-se muita coisa em nossa cabeça quando a morte chega, mesmo que seja assim: de passagem. Mesmo que ela mate só um pedaço de nós, aquele que precisa morrer e se dispersar na natureza e, por fim, permitir que outra coisa renasça.

Dentre as preces que fiz - muitas eram pela vida, outras eram pela morte. Pela preservação das nossas vidas, fiel a certeza de que estaríamos bem. Havia, porém, um conflito que se debatia com o pedido pela morte serena e sem dor. Era o pedido para que tudo aquilo acabasse. E acabasse bem. Pela vida ou pela morte.

Mas lembro-me de um pedido muito especial. Raro, talvez, que demorou um mês para ser recobrado na memória. E que continua sendo um pedido: cuide do meu amor. Sim, tou falando do ser que amo, mas também estou falando do amor que me habita. Não era justo sequelar de novo. Pedi a Deus então: "guarde meu amor numa caixinha, e permita que ele não se machuque". E deixe-me abrí-la logo que  for o tempo de lançá-lo ao mundo... Mas deixe comigo a certeza de que ele ainda me habita.


Do trocar a pele...

Trocar de pele nem sempre é fruto de escolhas. Às vezes a vida se aproxima como num temporal. Dificulta nossa caminhada, envolve o nosso corpo por lama e nos obriga a não correr, a andar devagar. Os galhos nas estradas nos arranham o corpo, e pancadas em pedras e troncos nos criam hematomas diversos. Aí chega ela, a violência que nos amarra, que nos fere a pele.
E assim começa um lento, ou não sei se lento, processo de troca. Ao voltar o sol, vemos claramente que não é possível restaurar aquela pele. Ali não há sutura, ali não há hidratação, não há bronzeamento. Há dois procedimentos - o tirar, definitivamente a pele - e isso dói. E o permanecer em carne viva, silenciosa, exercendo talvez o que é mais difícil das tarefas: esperar.
Tirar a pele e colocá-la para secar, em nada se confunde com poder vestí-la novamente. Agora, outras temperaturas, outras texturas perpassam aquele corpo. E a elas, uma nova pele precisa ser criada pelo tempo. Colocar a velha pele para secar só tem um propósito. Que ela não exale mal cheiro quando for lançada fora para sempre. Ninguém precisa conviver mais com ela. Vai se decompor, se reintegrar a natureza, quiçá virar adubo para fazer crescer outros seres, flores, frutos, capim que alimenta animais, cumprir outra função fora do corpo.
 Até lá, ficamos em carne viva. Uma sensação de exposição profunda nos inebria, então.
Tudo dói ao menor toque. O suave vento, aquele que outrora apenas refrescava o rosto em uma manhã de calor, agora dói, arde, queima aquela carne sensível.  E talvez prepare o corpo, resseque um pouco, para que ele crie a textura ideal de acolher a nova pele que nasce.
Em algumas partes do corpo, esse preparado todo incomoda ainda mais. E o mais difícil está posto. Não há o que fazer: é a espera, é o tempo, é a paciência.
Ajudam nisso tudo, o poder olhar para trás e poder tentar ver como outras esperas puderam ser válidas, o corpo brinca entre as entranhas de suas descobertas. Onde os bálsamos aliviam, onde ainda é território proibido. Como uma criança que aprende a andar, o passo a passo vai se instituindo. E vai driblando o medo, sentindo a dor como uma dor de prazer. Como quem pari a si mesmo e vai sentir novamente todas as sensações... e não se arruma para viver, simplesmente vive...